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Publicado: 06 de dezembro de 2025 às 09:01

CPMI do INSS rejeita convocação de Lulinha após articulação da base governista: mais um revés para investigações sobre fraudes

Rejeitado em votação nominal apertada, o requerimento para convocar Fábio Luís Lula da Silva conhecido como Lulinha, filho do presidente Lula para depor sobre supostas fraudes no sistema previdenciário.

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS viveu mais um capítulo de polarização política nesta quinta-feira (4), ao rejeitar, em votação nominal apertada, o requerimento para convocar Fábio Luís Lula da Silva – conhecido como Lulinha, filho do presidente Lula – para depor sobre supostas fraudes no sistema previdenciário. A decisão, que terminou em 19 votos contrários e 12 favoráveis, reflete a influência da base aliada do governo no Congresso, que tem barrado sistematicamente convocações de familiares e aliados do Planalto.

O que motivou o requerimento e por que ele foi rejeitado

O pedido de convocação foi apresentado pelo partido Novo e assinado por deputados e senadores da oposição, como Marcel van Hattem (RS), Eduardo Girão (CE), Adriana Ventura (SP) e Luiz Lima (RJ). Os parlamentares argumentaram que há "indícios de vínculo" entre movimentações financeiras investigadas pela CPMI e o filho do presidente. Especificamente, citaram a quitação de um boleto pago ao contador de Lulinha por uma empresa sob escrutínio da comissão, sugerindo possível conexão com esquemas de desvio de recursos do INSS.

Apesar dos argumentos, a base governista – composta por PT, PSOL e aliados do Centrão – articulou nos bastidores para derrubar o requerimento. Relatos indicam que, antes da votação, houve manobras para retirar itens da pauta, como quebras de sigilo e outras convocações, em troca de apoio para blindar figuras ligadas ao governo. O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), que tem se posicionado de forma mais independente, viu o placar se inverter graças à pressão coordenada pela liderança petista, incluindo o dirigente Ricardo Bimbo.

Contexto político: um padrão de proteção à família Lula

A rejeição não é isolada. A CPMI, instalada em novembro de 2025 para apurar fraudes bilionárias no INSS – estimadas em R$ 6 bilhões anuais, segundo o TCU –, tem sido palco de embates entre oposição e governo. Em outubro, a comissão já havia barrado a convocação do irmão do presidente, Frei Chico, por 18 votos a 13. Tentativas semelhantes contra o ministro Carlos Lupi (Trabalho) e o procurador-geral Jorge Messias também foram frustradas.

Lulinha, empresário do setor de TI e sócio de empresas como a LFT Marketing Digital, não é diretamente investigado pela CPMI. No entanto, seu nome surgiu em relatórios de movimentações atípicas, o que alimentou especulações da oposição sobre "conexões familiares" em meio a um escândalo que envolve lobistas, servidores e até supostos operadores petistas. Críticos do governo acusam a base aliada de usar sua maioria (o PT e aliados controlam cerca de 60% das cadeiras na comissão) para obstruir as apurações, transformando a CPMI em um "teatro político".

Reações e o que isso significa para a investigação

A oposição reagiu com indignação. Marcel van Hattem, um dos autores do requerimento, postou nas redes: "Mais uma blindagem descarada. A CPMI do INSS está virando CPMI do 'Não Investigamos'". Do lado governista, a articulação foi celebrada como "defesa da democracia contra perseguições", com deputados petistas argumentando que as convocações visam apenas "desestabilizar o governo Lula".

Para a CPMI, o episódio pode enfraquecer sua credibilidade. Com o prazo de 180 dias para concluir os trabalhos se aproximando (fim em maio de 2026), a comissão já aprovou quebras de sigilo de lobistas e convocou dezenas de testemunhas, mas os entraves políticos atrasam avanços concretos. Analistas preveem que o relatório final, a ser apresentado pelo relator Hugo Motta (Republicanos-PB), será morno, focando em recomendações genéricas contra fraudes, sem apontar culpados de alto escalão.

Implicações maiores: fraudes no INSS e a polarização no Congresso

O escândalo do INSS, revelado por auditorias do TCU e reportagens investigativas, envolve um esquema sofisticado de aposentadorias falsas, revisões irregulares e desvios via benefícios assistenciais. Até agora, a PF já prendeu 15 suspeitos, e o rombo pode ultrapassar R$ 10 bilhões. Para o governo, que depende de uma imagem de "limpeza" após anos de denúncias de corrupção no PT, esses bloqueios alimentam narrativas de impunidade.

Enquanto a oposição usa o caso para desgastar Lula – com memes e lives sobre "herança familiar" –, o Planalto aposta na narrativa de "golpismo seletivo". Com o Congresso dividido e as eleições municipais de 2026 no horizonte, a CPMI pode se tornar mais um símbolo da paralisia legislativa brasileira. Resta saber se novas evidências, como as que ligam Lulinha indiretamente ao caso, forçarão uma reviravolta – ou se a base governista continuará a ditar o ritmo das investigações.

A matéria é de 4 de dezembro de 2025, assinada por Vinícius Nunes, e reflete o clima de tensão no Congresso em meio a um ano eleitoral pré-aquecido. O que você acha: blindagem ou perseguição política?