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Publicado: 09 de dezembro de 2025 às 08:22

Valor do Seguro de Obras Roubadas da Biblioteca Mário de Andrade é Sigiloso, Diz Curador-Chefe do MAM

Roubo de gravuras de Matisse e Portinari durante exposição no centro de SP expõe vulnerabilidades em instituições culturais

O valor do seguro das 13 obras de arte roubadas da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, é sigiloso e não pode ser revelado por cláusulas contratuais, informou nesta segunda-feira (8) Cauê Alves, curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). O roubo ocorreu no domingo (7), durante o último dia da exposição “Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade”, e envolveu oito gravuras de Henri Matisse e cinco ilustrações de Candido Portinari, retiradas de vitrines sob ameaça de arma. Apesar de o imóvel contar com seguro ativo, Alves enfatizou que a apólice é apenas um “prêmio de consolação”, pois peças únicas como essas não podem ser substituídas por dinheiro. A Polícia Civil investiga o caso com apoio de câmeras de reconhecimento facial, mas os ladrões seguem foragidos.

O incidente, que mobilizou a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, reforça preocupações com a segurança de acervos públicos em um país que já sofreu perdas semelhantes, como o roubo de gravuras do Masp em 2007. A biblioteca, segunda maior do Brasil, completou 100 anos em fevereiro e recebeu mais de 207 mil visitantes em 2024.

Detalhes do Roubo e das Peças Subtraídas

Dois homens armados invadiram a biblioteca por volta das 10h43 de domingo, no último dia da exposição conjunta com o MAM. Eles renderam uma guarda de segurança e um casal idoso que visitava o local, dirigiram-se à cúpula de vidro onde as obras estavam expostas e as colocaram em uma sacola de lona antes de fugir pela saída principal. Imagens de câmeras da Smart Sampa, sistema de videomonitoramento da Prefeitura, mostram os suspeitos chegando em uma van azul na Rua João Adolfo, abandonando algumas telas na esquina com a Rua Alfredo Gagliotti e fugindo sem ser interceptados.

As peças roubadas incluem:

  • Oito gravuras de Henri Matisse: “O palhaço (Le clown)”, “O circo (Le cirque)”, “Senhor leal (Monsieur loyal)”, “O pesadelo do elefante branco (Cauchemar de l'Eléphant Blanc)”, “Os Codomas (Le Codomas)”, “O nadador no aquário (La nageuse dans l'aquarium)”, “O engolidor de palavras (L'avaleur de sabres)” e “O cowboy (Le Cowboy)”. Matisse, pioneiro do Fauvismo, é conhecido por cores vibrantes e formas revolucionárias.
  • Cinco gravuras de Candido Portinari: Ilustrações originais da obra literária “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego. Portinari, um dos maiores pintores brasileiros, teve obras roubadas anteriormente, como em 2007 no Masp.

A exposição destacava a conexão entre livros e artes visuais, com as peças emprestadas pelo MAM para celebrar o centenário da biblioteca.

Declarações do Curador-Chefe do MAM

Cauê Alves, curador-chefe do MAM, foi categórico ao tratar do seguro: “O seguro é muito mais como prêmio de consolação. Não se pode recuperar um patrimônio desse. Não está disponível no mercado para comprar. Ou, se estiver, vai ser uma coisa excepcional”. Ele explicou que o valor é confidencial por determinação contratual e que, mesmo com indenização, não há como repor itens únicos como esses, que integram o patrimônio cultural imaterial do Brasil. Alves destacou a importância da recuperação física das obras, priorizando esforços investigativos sobre compensações financeiras.

Atualizações da Investigação

A Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-SP) confirmou que a Polícia Civil atua via 1ª Central Especializada de Repressão a Crimes e Ocorrências Diversas (Cerco), com o boletim de ocorrência registrado no 2º DP (Bom Retiro). O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou à GloboNews que o sistema Smart Sampa, com reconhecimento facial, identificou os autores, que estão sendo procurados. “Temos as imagens claras dos rostos e do veículo. A polícia está atuando com agilidade”, disse Nunes. Até o momento, não há prisões ou localização das peças, mas a Secretaria de Cultura fornece todas as imagens de câmeras internas da biblioteca.

A biblioteca possui vigilância 24 horas, equipe de segurança e seguro vigente, mas o roubo expõe falhas em protocolos de exposição temporária.

Contexto da Biblioteca Mário de Andrade

Inaugurada em 1925 como Biblioteca Municipal, a instituição foi rebatizada em 1960 em homenagem ao escritor modernista Mário de Andrade. É a maior biblioteca pública de São Paulo e a segunda do país, com acervo de milhões de itens. O roubo não é isolado: em 2006, 12 gravuras raras do século XIX foram furtadas e só recuperadas pela Polícia Federal em 2024, após 18 anos.

Implicações Culturais e de Segurança

O furto de obras de Matisse e Portinari representa uma perda irreparável para o patrimônio cultural brasileiro, destacando a fragilidade de instituições públicas apesar de investimentos em segurança. Especialistas alertam para o mercado negro de arte, onde peças como essas podem ser vendidas fragmentadas ou usadas como moeda de troca no crime organizado. O caso reacende debates sobre alocação de recursos para proteção de acervos, com o MAM e a Prefeitura prometendo revisão de protocolos em exposições conjuntas.