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Publicado: 17 de dezembro de 2025 às 08:23

STF reintegra candidata ao concurso de delegado em SC e abre debate sobre critérios de idoneidade

Ministro Flávio Dino determina retomada de participação de advogada casada com condenado por tráfico, gerando reação da corporação e discussão nacional sobre investigação social

Uma decisão liminar do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), reacendeu um debate sensível no país ao determinar que uma candidata volte a participar do concurso para delegada da Polícia Civil de Santa Catarina, após ter sido eliminada na fase de investigação social. A exclusão havia ocorrido em razão de seu casamento com um homem condenado por tráfico de drogas.

O caso ultrapassou o âmbito administrativo e passou a gerar ampla repercussão jurídica, institucional e social, levantando questionamentos sobre até onde pode ir a investigação da vida pessoal de candidatos a cargos públicos, especialmente em carreiras ligadas à segurança pública.

Entenda o caso

A candidata, advogada, havia sido aprovada em diversas etapas do concurso, incluindo provas objetivas, avaliação física, exame psicológico e análise de títulos. A eliminação ocorreu apenas na fase de investigação social, quando a banca considerou que o vínculo conjugal com um condenado por tráfico poderia comprometer os requisitos de idoneidade exigidos para o cargo de delegada.

Após tentativas frustradas de reverter a decisão em instâncias inferiores, a defesa recorreu ao Supremo Tribunal Federal, que concedeu liminar permitindo que a candidata retomasse sua participação no certame até o julgamento definitivo do caso.

Fundamentos da decisão

Na decisão, o ministro destacou princípios constitucionais como a individualização da responsabilidade, a presunção de inocência e a impossibilidade de se impor sanções ou restrições profissionais a alguém por atos praticados por terceiros. Segundo o entendimento apresentado, o Estado não pode penalizar uma pessoa por escolhas ou crimes cometidos por familiares, desde que não haja envolvimento direto ou comprovação de conduta ilícita própria.

O ministro também ressaltou que a exclusão poderia causar prejuízo irreversível à candidata, considerando os anos de dedicação e preparação exigidos para concursos de alto nível.

Reação dentro da corporação

A decisão provocou reação entre integrantes da Polícia Civil de Santa Catarina. Parte da corporação manifestou preocupação com possíveis riscos à segurança institucional e à credibilidade da função de delegada, defendendo que a investigação social deve considerar fatores que possam gerar conflitos de interesse ou vulnerabilidades no exercício do cargo.

Esse posicionamento reflete uma visão mais rígida sobre os critérios de seleção para carreiras policiais, onde a confiança pública e a integridade funcional são consideradas elementos centrais.

Debate jurídico e social

Juristas e especialistas em direito administrativo acompanham o caso como um marco relevante sobre os limites da investigação social em concursos públicos. De um lado, está a defesa de critérios objetivos, legais e impessoais. De outro, a argumentação de que determinadas funções exigem padrões mais elevados de análise, inclusive considerando contextos pessoais que possam impactar a atuação profissional.

A discussão também levanta questionamentos sobre possíveis excessos do poder público e o risco de avaliações subjetivas abrirem margem para injustiças ou discricionariedade indevida.

O que ainda pode mudar

A decisão é provisória e não encerra o mérito do processo. O julgamento definitivo do STF poderá estabelecer parâmetros mais claros sobre o alcance da investigação social em concursos públicos, especialmente em áreas sensíveis como segurança, justiça e fiscalização.

O resultado poderá influenciar futuros certames em todo o país, servindo de referência tanto para bancas organizadoras quanto para candidatos.

Impacto além do caso individual

Mais do que um episódio isolado, o caso expõe um dilema recorrente no Estado brasileiro: como equilibrar direitos fundamentais com a necessidade de preservar a segurança institucional e a confiança da sociedade. A resposta a essa pergunta pode redefinir práticas administrativas e consolidar entendimentos jurídicos com efeitos duradouros.

Enquanto o debate segue em aberto, o caso permanece como símbolo de uma discussão maior sobre justiça, responsabilidade individual e os limites do poder estatal.