Foguete Hanbit-Nano explode minutos após decolagem em Alcântara e frustra primeiro lançamento orbital comercial do Brasil
Veículo sul-coreano da Innospace sofreu anomalia no primeiro estágio; autoridades destacam validação da infraestrutura brasileira apesar da falha
O foguete Hanbit-Nano, desenvolvido pela startup sul-coreana Innospace, decolou às 22h13 desta segunda-feira (22) do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, marcando o primeiro lançamento comercial de um veículo espacial a partir do território brasileiro. No entanto, a missão terminou em falha: menos de dois minutos após a ignição, uma anomalia foi detectada, levando à interrupção do voo e à colisão controlada do foguete com o solo dentro da área da base. Partes em chamas caíram na região, sem registros de feridos ou danos externos.
A Operação Spaceward, coordenada pela Força Aérea Brasileira (FAB) em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB), mobilizou cerca de 400 profissionais, incluindo 300 militares. Após múltiplos adiamentos – inicialmente previsto para novembro e remarcado várias vezes por questões técnicas, como problemas em válvulas e condições meteorológicas –, o lançamento ocorreu no último dia da janela disponível (22 de dezembro).
O Hanbit-Nano, um foguete de dois estágios com 21,8 metros de altura e cerca de 20 toneladas, transportava oito cargas úteis: cinco pequenos satélites e três dispositivos experimentais, sendo sete brasileiros (incluindo nanossatélites da Universidade Federal de Santa Catarina para comunicação de baixo consumo e um satélite educacional com mensagens de alunos quilombolas) e um indiano. Nenhum artefato alcançou órbita.
A transmissão ao vivo da Innospace foi interrompida ao exibir a mensagem "We experienced an anomaly during the flight" ("Vivenciamos uma anomalia durante o voo"). Equipes da FAB e do Corpo de Bombeiros foram enviadas para avaliar destroços e garantir segurança. O CEO da Innospace, Kim Soo-jong, emitiu pedido público de desculpas, reconhecendo o insucesso.
Apesar da falha, autoridades brasileiras avaliaram positivamente o evento. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) afirmou que a operação "cumpriu um papel fundamental ao testar e validar a infraestrutura operacional brasileira", sem impacto no Programa Espacial Brasileiro. Marco Antônio Chamon, presidente da AEB, destacou o avanço em pesquisas com dispositivos de pequeno porte, mesmo que não sejam tecnologias de ponta.
O episódio ocorre 22 anos após o trágico acidente de 2003 em Alcântara, que matou 21 técnicos em explosão do VLS-1. A localização privilegiada da base – próxima ao Equador, economizando até 30% de combustível – continua a atrair interesse internacional. A Innospace, selecionada em edital de 2020, foi a primeira a completar etapas para operações comerciais, impulsionadas por acordos como o de Salvaguardas Tecnológicas com os EUA.
A falha não atingiu órbita, mas reforça desafios do setor espacial, onde anomalias são comuns mesmo em programas consolidados. Analistas veem o lançamento como marco operacional para o CLA, posicionando o Brasil no mercado global de pequenos lançadores, dominado por empresas como SpaceX. Investigações sobre a causa da anomalia prosseguem, com ações da Innospace caindo cerca de 30% na bolsa asiática.
