Pastor evangélico ora na Sapucaí e reacende debate sobre fé e Carnaval
Participação de Cosme Felippsen no Sambódromo provoca reações intensas e evidencia divisões teológicas no meio cristão
A Marquês de Sapucaí, maior símbolo da cultura carnavalesca do Brasil, foi palco de um evento que rompeu com décadas de tradição religiosa. O pastor Cosme Felippsen, da Assembleia de Deus Esperança (RJ), realizou uma oração pública durante um evento na avenida, pedindo proteção para trabalhadores e foliões. O gesto, embora focado na paz e segurança, reacendeu uma discussão profunda: como deve ser a relação entre o cristianismo e a maior festa popular do país?
Quem é o Pastor Cosme Felippsen?
Cosme Felippsen é uma voz conhecida no Rio de Janeiro por seus posicionamentos progressistas. Diferente da ala mais tradicional do segmento evangélico, sua atuação é focada em:
- Justiça Social: Defesa de pautas ligadas à inclusão e combate à fome.
- Diálogo Inter-religioso: Respeito e interlocução com religiões de matriz africana.
- Combate ao Racismo: Atuação em pautas sociais nas comunidades fluminenses.
A Oração no Sambódromo
Em sua participação, o pastor enfatizou que o Carnaval não deve ser visto como algo "demoníaco". Para ele, os desafios urgentes da igreja e da sociedade são a violência e a desigualdade, e não a festa em si. Sua oração focou em:
- Proteção: Para os milhares de profissionais que fazem o evento acontecer.
- Paz: Para os foliões que ocupam o espaço público.
- Presença: A ideia de que a fé cristã pode ocupar espaços culturais sem se isolar.
Reações e Divisões
A presença do líder religioso na passarela do samba revelou duas frentes de pensamento bem distintas no Brasil de 2026:
O Lado dos Apoiadores
Elogiam a postura conciliadora e veem o ato como um reconhecimento do Carnaval como manifestação cultural legítima. Para este grupo, a oração simboliza que a fé pode conviver harmonicamente com a cultura popular e a liberdade religiosa.
O Lado dos Críticos
Líderes de linhas conservadoras veem a atitude como incoerente. Argumentam que o ambiente do Carnaval, marcado por excessos de álcool e sensualização, é incompatível com a ética bíblica. Para este setor, a alternativa correta continua sendo o isolamento em retiros espirituais.
Contexto Histórico: A Origem do Conflito
O debate não é novo e possui raízes profundas na formação das igrejas no Brasil:
- Raízes Cristãs: O Carnaval surgiu como o período de "despedida da carne" antes da Quaresma (os 40 dias de penitência católica).
- Divergência Teológica: Enquanto o Catolicismo historicamente conviveu com a festa (mesmo com críticas), o movimento evangélico pentecostal do século XX consolidou uma postura de afastamento radical, criando os famosos "retiros" para proteger os fiéis do que consideram um ambiente nocivo.
Conclusão
O ato do pastor Cosme Felippsen sinaliza que o segmento evangélico não é um bloco único. A mudança de postura de parte das lideranças nas últimas décadas indica que o diálogo com a cultura pode ser o novo caminho para muitos cristãos que desejam estar inseridos na sociedade, sem necessariamente abdicar de seus valores.
