IA do Google ajuda a descobrir segredos de papiro de 2 mil anos carbonizado pelo Vesúvio
Tecnologia de aprendizado de máquina permitiu a leitura de trechos inéditos de obra filosófica sobre prazer e música, preservada sob cinzas vulcânicas desde o ano 79 d.C.
Uma iniciativa internacional que combina arqueologia clássica e inteligência artificial alcançou um marco histórico ao decifrar textos de um papiro carbonizado durante a erupção do vulcão Vesúvio, na antiga cidade de Herculano. Utilizando algoritmos de aprendizado de máquina desenvolvidos com o apoio de tecnologias do Google e de outras gigantes do setor, pesquisadores conseguiram ler passagens de uma obra do filósofo Filodemo de Gadara, que discute a relação entre o prazer e a música.
O documento faz parte da famosa "Vila dos Papiros", uma biblioteca luxuosa que foi enterrada por metros de material vulcânico há quase dois milênios. Até recentemente, qualquer tentativa física de desenrolar esses pergaminhos resultava na destruição imediata do material, que se assemelha a um pedaço de carvão frágil. A nova técnica utiliza tomografias computadorizadas de alta resolução para "desenrolar virtualmente" o papiro e, em seguida, aplica a IA para detectar variações mínimas de textura que indicam a presença de tinta.
Os trechos agora revelados trazem reflexões inéditas sobre como a percepção do prazer pode ser influenciada por elementos sensoriais. Filodemo, um seguidor da escola epicurista, questiona se a música traz um prazer intrínseco ou se sua apreciação depende exclusivamente do estado de espírito do ouvinte. Segundo os especialistas envolvidos no projeto, a clareza dos dados obtidos pela inteligência artificial permitiu identificar letras e palavras que estavam ocultas por séculos sob as camadas de cinza petrificada.
O avanço é visto como uma revolução para a historiografia e a filologia clássica. Estima-se que centenas de outros rolos de papiro da mesma biblioteca ainda aguardem análise, o que pode levar à recuperação de obras perdidas de grandes pensadores da Antiguidade. A colaboração entre cientistas da computação e papirólogos demonstra como ferramentas modernas de processamento de dados podem ser aplicadas para resolver enigmas que a ciência tradicional considerava insolúveis.
O projeto, que contou com uma premiação global para incentivar desenvolvedores de software a criar os melhores códigos de leitura, deve seguir para novas fases. O objetivo agora é automatizar ainda mais o processo de detecção de caracteres para que bibliotecas inteiras possam ser digitalizadas e lidas sem que os originais sejam tocados.
A descoberta reforça o papel da tecnologia na preservação do patrimônio histórico mundial. Para os curadores das coleções de Herculano, a possibilidade de ler o pensamento de filósofos que viveram há dois mil anos, sem danificar os artefatos, representa o maior avanço na arqueologia digital das últimas décadas.
