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Publicado: 07 de março de 2026 às 10:54

'A saúde coletiva é a ecologia', afirma médico fundador do Projeto Manuelzão

Apolo Heringer Lisboa, idealizador de um dos maiores projetos de revitalização de rios do Brasil, defende que a medicina deve ir além dos consultórios para tratar a "saúde dos ecossistemas" como base da sobrevivência humana.

Em entrevista concedida neste sábado (7) à coluna Notícias da Floresta, o médico sanitarista e professor da UFMG, Apolo Heringer Lisboa, trouxe uma reflexão profunda sobre os rumos da saúde pública no Brasil. Fundador do Projeto Manuelzão, Apolo argumenta que o conceito tradicional de saúde está equivocado ao focar apenas na assistência médica e na cura de doenças já instaladas.

"A saúde coletiva é a ecologia. É o equilíbrio dos ecossistemas. A saúde é o produto de um ecossistema saudável; a assistência médica é apenas um serviço prestado quando esse equilíbrio falha", afirmou o médico.

O Rio como Termômetro da Vida

O Projeto Manuelzão, criado em 1997 na Faculdade de Medicina da UFMG, nasceu de uma constatação simples, mas revolucionária: de nada adianta medicar populações ribeirinhas se elas continuam bebendo água contaminada e vivendo em ambientes degradados. O indicador de sucesso do projeto nunca foi o número de cirurgias, mas sim a "volta do peixe" ao Rio das Velhas, em Minas Gerais.

Para Heringer, o rio é o "sangue da terra", e sua poluição é o sintoma de uma sociedade doente. Ele destacou que:

  • Assistência não é Saúde: Hospitais tratam a doença, mas a saúde real é construída na preservação das matas ciliares, no saneamento básico e na pureza dos rios.
  • Visão Ecossistêmica: O médico defende que o profissional de saúde do futuro precisa entender de biologia, geografia e saneamento para atuar na prevenção primária.
  • Crítica ao Modelo Atual: A dependência da "indústria da doença" impede que políticas públicas foquem no que realmente mantém as pessoas vivas e saudáveis: o meio ambiente.

Legado e Futuro

Aos 30 anos de existência (completados em 2027), o Projeto Manuelzão segue como uma das principais vozes na defesa da Bacia do Rio das Velhas. As declarações de Heringer reforçam o papel do projeto em um momento de crise climática global, onde a perda de biodiversidade e a escassez hídrica ameaçam diretamente a saúde coletiva.

A fala de Apolo Heringer ressoa como um alerta para gestores públicos e para a sociedade: sem rios vivos, não haverá sistema de saúde capaz de conter as enfermidades do século XXI.