Desafios do algodão em 2026: entre recordes de exportação e pressões de mercado
Após safra recorde de exportações, setor enfrenta custos elevados, preços moderados e mudanças no comércio global que exigem adaptação e inovação
O algodão brasileiro entra em 2026 em um momento de oportunidades e desafios. Após fechar o ciclo anterior com volumes históricos de exportação — impulsionando o país como um dos principais fornecedores globais da fibra — o setor agora se depara com pressões de custos, cotações internacionais moderadas e mudanças nos fluxos comerciais que podem limitar ganhos adicionais nos próximos meses.
Em 2025, o Brasil registrou recorde de exportação de algodão, com milhões de toneladas embarcadas e receitas bilionárias, reafirmando a importância do país no mercado global. Porém, apesar desse desempenho expressivo em volume, os preços médios internacionais ficaram abaixo dos níveis observados em 2024, o que mostra que, embora o Brasil esteja vendendo mais, cada unidade da fibra vem gerando menos receita do que em ciclos anteriores.
No panorama internacional, alterações nas tarifas de países como a Índia e a China vêm redesenhando rotas comerciais importantes. A Índia, que retornou a tarifas de importação, pode tornar sua fibra menos competitiva em mercados sensíveis a preço, enquanto a China, como grande consumidora global, ajusta suas tarifas de importação, influenciando a dinâmica de oferta e demanda. Essas mudanças podem deslocar os destinos tradicionais do algodão brasileiro e impactar sua competitividade no curto e no médio prazo.
O recente acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia cria expectativas de maior acesso ao mercado europeu. A possibilidade de ampliar embarques para a Europa é vista com otimismo por produtores e exportadores brasileiros, especialmente se for acompanhada de regras de origem claras e mecanismos que valorizem a qualidade e sustentabilidade do produto nacional. Esse acesso ampliado poderia também favorecer o desenvolvimento de produtos de maior valor agregado dentro da cadeia têxtil.
No âmbito doméstico, fatores como variações regionais de produtividade, manejo integrado de pragas e disponibilidade hídrica permanecem determinantes para o desempenho da safra. Investimentos em tecnologia agrícola e melhorias na logística de escoamento são elementos cruciais para que o potencial produtivo seja plenamente aproveitado, especialmente em um cenário em que o custo de insumos, energia, frete e capital segue pressionando a rentabilidade dos produtores.
Com preços internacionais mais moderados, a rentabilidade para 2026 deve estar menos associada a grandes aumentos de preço e mais vinculada à redução de custos e ganhos de eficiência produtiva. A relação entre as cotações no exterior e a variação cambial continuará a ser um fator fundamental para a receita dos exportadores brasileiros, especialmente em um contexto de juros elevados nas principais economias globais.
Além disso, o crescimento econômico global projetado para 2026, estimado em níveis modestos, pode limitar a demanda por bens não essenciais, como vestuário e produtos têxteis, aumentando a competição entre países exportadores. Mercados emergentes com recuperação mais rápida podem absorver parte dessa demanda adicional, mas tendem a ser seletivos quanto à origem e ao preço da fibra.
Diante desse cenário, produtores devem focar em estratégias que incluam redução de custos por hectare, adoção de tecnologias modernas, manejo eficiente de pragas e diversificação de mercados e contratos de venda que reduzam a exposição à volatilidade de preços. Exportadores e tradings, por sua vez, podem buscar certificações de sustentabilidade, rastreabilidade e parcerias logísticas que reduzam prazos e custos de embarque, além de ampliar a presença da fibra brasileira em cadeias de valor premium.
A indústria têxtil nacional também tem papel central nesse processo, com a necessidade de investir em modernização, qualificação de mão de obra e cooperação com produtores de fibra para garantir oferta de produtos com especificações diferenciadas e maior valor agregado.
Para que o Brasil se mantenha competitivo na oferta global de algodão em 2026, será preciso unir esforços produtivos, tecnológicos e comerciais, ampliando não apenas o volume exportado, mas também a qualidade e o valor agregado da cadeia têxtil. Com essa abordagem, o país poderá enfrentar com mais solidez as pressões de mercado, as mudanças regulatórias e os desafios econômicos que marcarão o próximo ano.
