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Publicado: 04 de fevereiro de 2026 às 09:52

Manutenção da Selic em 15% divide o setor imobiliário e acirra cobranças por juros baixos

Enquanto incorporadoras classificam taxa como "incompatível" com o crescimento, entidades de crédito mantêm otimismo e projetam alta nos financiamentos para 2026.

A recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% ao ano gerou reações distintas dentro do setor imobiliário brasileiro. De um lado, a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC) adotou uma postura crítica, classificando o atual patamar de juros como um entrave severo ao desenvolvimento econômico. Do outro, a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) preservou seu tom otimista, sustentando a previsão de que o setor continuará crescendo ao longo do ano.

Para a ABRAINC, a estabilidade da Selic no maior nível em quase duas décadas é "incompatível com as necessidades de crescimento" do país. Em nota, a entidade destacou que os juros elevados drenam recursos que deveriam ser destinados à produção e à geração de empregos, direcionando-os para o serviço da dívida pública. A associação estima que cada ponto percentual de redução na taxa básica de juros poderia gerar uma economia anual de até R$ 60 bilhões para os cofres públicos, recursos que poderiam ser reinvestidos no desenvolvimento produtivo.

Em contraste, a Abecip mantém a expectativa de que o mercado de crédito imobiliário crescerá 16% em 2026. A presidente da associação, Priscilla Ciolli, afirmou que a manutenção da taxa em 15% já era esperada e não altera o cenário positivo traçado para o setor. A entidade aposta que o início do ciclo de cortes de juros, previsto para o segundo semestre, será suficiente para manter o fôlego das concessões de financiamento, especialmente nas faixas de médio e alto padrão.

O pano de fundo desse embate é um mercado que, embora resiliente, depende fundamentalmente de crédito acessível. Programas como o Minha Casa, Minha Vida têm sustentado a demanda na baixa renda, mas a manutenção prolongada de juros altos preocupa incorporadores que dependem de investimentos de longo prazo. A divergência de visões entre quem constrói e quem financia reflete a incerteza sobre a velocidade da flexibilização monetária e o impacto que o custo do dinheiro terá sobre o volume de novos lançamentos.

Estrategistas do mercado observam que, independentemente do otimismo de alguns setores, a pressão sobre o Banco Central deve aumentar nos próximos meses. Com o Brasil ocupando posições de liderança em rankings globais de juros reais, a cobrança por um alinhamento entre a política monetária e a necessidade de expansão da construção civil — um dos maiores motores da economia brasileira — será um dos temas centrais do debate econômico em 2026.