Brasil registra recorde de recuperações judiciais e extrajudiciais sob pressão de juros altos
Cenário econômico adverso e endividamento estrutural levam gigantes como GPA e Raízen a renegociarem dívidas bilionárias.
O cenário corporativo brasileiro atravessa um período de forte turbulência, marcado por um aumento expressivo nos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial. Recentemente, grandes grupos como o Pão de Açúcar (GPA) e a Raízen anunciaram planos para reestruturar dívidas bilionárias, evidenciando uma crise que atinge desde o varejo até o agronegócio.
De acordo com dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (OBRE), o país registrou um recorde de 78 processos dessa natureza apenas em 2025. O caso da Raízen, em particular, já é considerado o maior da história do país dentro desta modalidade. Especialistas apontam que a preferência pela recuperação extrajudicial ocorre por ser um mecanismo menos invasivo e mais rápido para resolver impasses com credores antes que a situação se torne irreversível.
O peso da Selic e o custo do capital
O principal motor dessa onda de insolvência é a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em patamares elevados. Atualmente estacionada em 15% ao ano, a taxa representa o maior nível em quase duas décadas. Para muitas empresas que buscaram crédito quando os juros estavam entre 2% e 4%, a conta financeira tornou-se impagável.
Com o acréscimo do risco bancário, o custo real da dívida para as companhias pode chegar a 30% ao ano. Analistas econômicos explicam que poucos negócios no Brasil possuem margem de lucro suficiente para arcar com tamanha pressão financeira, o que acaba drenando o caixa operacional e forçando a busca por proteção judicial.
Impactos no agronegócio e varejo
Além dos fatores macroeconômicos, questões estruturais específicas têm agravado a situação de setores vitais. O agronegócio, que historicamente sustenta o PIB nacional, bateu recorde de pedidos de recuperação judicial em 2025, com quase 2 mil solicitações. O setor enfrenta uma combinação de queda nos preços internacionais das commodities, problemas climáticos que afetaram a produtividade e o alto custo do frete.
No varejo, a mudança no comportamento do consumidor e a concorrência digital somam-se à falta de liquidez. Especialistas alertam que a crise gera um efeito cascata: quando muitas empresas de um mesmo segmento entram em recuperação, os bancos tornam o crédito ainda mais caro e escasso para todo o setor, prejudicando inclusive as companhias que estão saudáveis.
Necessidade de reforma operacional
Embora a renegociação de prazos e descontos nas dívidas seja o caminho imediato, consultores do setor afirmam que a solução definitiva exige mudanças na gestão. O diagnóstico é que o crédito barato do passado mascarou ineficiências operacionais que agora vêm à tona.
Para que as empresas sobrevivam a longo prazo, a orientação é que não busquem apenas o fôlego financeiro, mas realizem uma reorganização profunda em seus modelos de negócio. O objetivo é recuperar a rentabilidade e a confiança do mercado, garantindo a manutenção de empregos e a continuidade das atividades produtivas no país.
